Porto

– Só conheço uma expressão que faça justiça ao que, em seis anos, se passou na noite do Porto: «um milagre».

– Hoje, enquanto tomava o segundo pequeno-almoço numa esplanada no bairro do Viso («então, ’tá bom?», ouvi, neste bairro social portuense de não lá muito boa fama), li encantado este poema, bom de memorizar e declamar.

ESPLANADA

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina

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