Caçar fantasmas

E não apenas contemplá-los; como disse Picasso: não só procurar, mas encontrar.

——

“Este espírito de camaradagem irascível que Stephen observara nos últimos tempos no seu rival não o levara a abandonar os seus hábitos de obediência silenciosa. Desconfiava da turbulência e duvidava da sinceridade de uma tal camaradagem, que lhe parecia um deplorável antegosto dos anos da idade viril. O ponto de honra ali suscitado era, a seus olhos, como todas as questões do género, uma coisa de somenos importância. Enquanto o seu espírito perseguira os seus fantasmas intangíveis, abandonando depois, irresoluto, esse fito, ele ouvira em volta de si as vozes constantes do pai e dos mestres, incitando-o a ser um cavalheiro acima de tudo e incitando-o a ser um bom católico acima de tudo. Estas vozes soavam-lhe agora aos ouvidos como palavras vãs. Aquando da abertura do ginásio, ouvira outra voz a incitá-lo a ser forte e másculo e sadio, e, quando o movimento de restauração nacionalista começou a fazer-se sentir no colégio, uma outra voz pediu-lhe que fosse fiel ao seu país e ajudasse a reerguer a sua língua e as suas tradições decaídas. No mundo laico, antevia já, uma voz mundana iria pedir-lhe que reerguesse com o suor do seu rosto o património delapidado do pai, e, entretanto, a voz dos camaradas da escola incitava-o a ser um bom colega, a encobrir as culpas dos outros e a pedir aos mestres que não os castigassem e a dar o seu melhor para obter dias de folga para todos. E era a algazarra de todas estas vozes cavas que o fazia deter-se, irresoluto, ao perseguir os espectros. Dava-lhes ouvidos somente durante breves instantes, mas só se sentia feliz quando estava longe delas, fora do alcance dos seus chamamentos, sozinho ou na companhia de camaradas fantasmagóricos.
(James Joyce, O Retrato do Artista quando Jovem, trad. Paulo Faria, págs. 87-88.)

(…) eles [os caminhos da serra com vista para o mar] recordavam-me de que a minha sina era perseguir fantasmas, seres cuja realidade estava em boa parte na minha imaginação; há, com efeito, criaturas – e fora esse, desde a juventude, o meu caso – para quem tudo o que possui um valor fixo, verificável por outras pessoas, a fortuna, o êxito, as situações proeminentes, não conta; do que precisam é de fantasmas. Sacrificam tudo o resto, lançam mão de tudo, tudo põem ao serviço da tarefa de encontrar determinado fantasma. Mas este não tarda a desvanecer-se; correm então atrás de outro, prontos para voltar depois ao primeiro. (…) De fantasmas perseguidos, esquecidos e de novo procurados, às vezes para uma única entrevista e para aflorar uma vida irreal que logo se escapava, deles estavam cheios aqueles caminhos de Balbec. Ao pensar que as suas árvores, pereiras, macieiras, tamarizes, haveriam de me sobreviver, parecia-me receber deles o conselho de me lançar enfim ao trabalho enquanto não soara ainda a hora do repouso eterno.
(Marcel Proust, Sodoma e Gomorra, trad. Pedro Tamen, págs. 415-116.)

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