Lágrimas pelo século XX

Acordei e, devido à minha incapacidade em fazê-lo, decidi transcrever integralmente o mais belo comentário a esse grandioso filme.
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John Ford: O Vale era Verde. Lágrimas pelo século XX
pelo grande Jorge Silva Melo

Não me esqueço. Quando A Regra do Jogo de Renoir estreou no antigo Satélite, cineminha incrustado no grande Monumental, tudo isto nos princípios dos anos 70, passei uma tarde com uma senhora minha amiga que nessa altura andaria pelos oitenta anos. E dizia-me Deolinda Vieira (era ela): “Já fui ver o filme cinco vezes. E posso ir vê-lo todas as tardes, entretenho-me a segui-lo do ponto de vista de uma das tantas personagens que o filme tem. E olhe que o filme é tão bem feito que todos os dias fica diferente.”
O Vale era Verde é dessa raça. Não porque a sua estrutura seja poliédrica como a da obra-prima de Renoir. A ser parecido com algum Renoir, seria com o d’ O Rio Sagrado. Mas vê-se sempre O Vale era Verde de maneira diferente porque de todas as vezes se chora por coisas diferentes. (Ou só por uma? Pelo próprio século XX?)
Já, ao ver este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento; ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou o casamento da irmã; ou as greves perdidas; ou a derrota do trabalhismo britânico às mãos da senhora Thatcher; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances lidos na cama – e também foi convalescente que li A Ilha do Tesouro, como suponho que todos os meninos o lerão; ou a chegada da Primavera, o cheiro a sabão azul e branco, barrelas e banhos ao domingo de manhã.
O Vale era Verde é filme em que a lembrança das passadas coisas nos magoa e nos apazigua. Ver este filme é necessariamente acharmo-nos, com Camões, sôbolos rios que vão, em Babilónia […] onde sentado chorei / as lembranças de Sião / e quanto nela passei. E quando digo que é um filme proustiano (camoniano?), não o digo lá por ser narrado na primeira pessoa, pelo jovem agora cinquentão. É, sobretudo, porque a procura e o consequente reencontro do tempo perdido é aqui feito no próprio tratamento da mise-en-scène. Que são os aventais imaculadamente brancos deste filme (recorrentes em todo o cinema de Ford) a não ser uma outra madalena de Proust, deixa sensorial para recolher todas as lembranças, relicário do passado? Que é o encadeado de cenas dos primeiros vinte minutos a não ser o fluir de um discurso evocativo que irá deambular até à definição do primeiro acontecimento (o acidente no degelo)? Que mais é o breve discurso do narrador, no início, enaltecendo o poder da memória, do que incitação ao trabalho da fala que, evocando o passado, o faz renascer, o ressuscita?
Mas o mundo que, em Proust, permite o reencontro de Albertine é o mundo de um século ainda não arrasado pela primeira Guerra Mundial – esse século XIX que não há meio de morrer. E na pequena aldeia de Gales reconstruída em estúdio, estilizada em Ford, é o próprio século XX que de nós foge e para nós ressurge.
Como verei este filme hoje, com a visão tão presente dos mineiros do Peijão por nós próprios postos ao deus-dará? Ainda, no outro dia, me cruzei com eles manifestando-se, sombrios, na Calçada da Estrela, e ainda, no meio deles, reconheci um Donald Crisp (o pai, mas não um pai qualquer, o “pai nosso” deste filme). Que fica deste filme, agora que a Lorena está deserta, que Longwy é a mais triste terra do mundo, que ao horror da mina oferecemos em troca a agonia do desemprego? Quando se erguem, sobre as minas, parques temáticos como o teatraliza Jean-Paul Wenzel na sua tremenda Faire Blue?
O Vale era Verde é o século XX, como o Quijote é o fantasma do seu século. E é assim que, também, este filme anda para as bandas de A Regra do Jogo. Mais do que um estudo sobre determinado aspecto ou momento de uma sociedade, são os próprios fundamentos dessa sociedade (a sua moral, os seus impasses, os seus ditames, a sua alma) quem é aqui posto em cena, quem aqui perante nós reencarna.
Se choro ao ver O Vale era Verde, é porque, nesta parte do século XX que me coube, eu aprendi – com este filme e ao mesmo tempo que ele – a acreditar que “um homem não chora”, a acreditar no silêncio dos homens e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta, e também nas grandes almofadas, no banho na celha, na água a ferver. Este filme é, pela certa, o catecismo, laico e puritano, conservador e progressista, a lei humana de que sou feito.
É dele, deste filme ideológico entre todos (contra as “greves”, dir-se-ia, pela honra dos fura-greves, parece, como o Há Lodo no Cais), que são feitas as minhas lágrimas, quando vejo os trabalhadores da Marinha Grande reinventarem com honra a palavra “vidreiro”. Mas, também, quando ouço falar dos suicídios do Alentejo, da fome do Guadiana. É este filme que mais claramente me ensinou – este é um filme que ensina, será pecado? – que é mais fácil “um camelo atravessar o buraco da agulha do que a um rico entrar no Reino dos Céus”.
E não é pela história – é pelo tremendo calor humano, apenas humano, que nos vem do desenho tão nítido das personagens, da sua tão grande discrição, da sua presença num espaço mais evocado do que refeito, da precisa concreção da movimentação (vejam a mãe nas cenas das refeições e percebam como as personagens se movem neste filme “porque têm que fazer”).
Já neste filme, catálogo etnológico de cerimónias rituais – casamentos, refeições, banhos, convalescenças, bailes, greves –, chorei por quase tudo aquilo de que sou feito: pelas traições, também, pelas derrotas.
Mas não sei se esta noite convidava filho meu a ficar até tarde a vê-lo na tv. É que este filme faz mal. Ainda hoje me faz pensar que é possível um mundo dos homens.

Público, 11 de Fevereiro de 1995, in Século Passado.

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