A propósito

de uma conversa e de uns tweets sobre viagens de comboio,
para a I. B..

“E, no hall, o juiz-presidente dizia-nos: «Ah, vão à Raspelière! Irra, que atrevimento, o da senhora Verdurin, obrigá-los a fazer uma hora de comboio, de noite, só para jantar. E repetir o trajecto às dez da noite com uma ventania dos diabos. Vê-se bem que não têm nada que fazer», acrescentava esfregando as mãos. Era evidente que falava assim descontente por não ser convidado, e também com a satisfação dos «homens ocupados» − ainda que no trabalho mais estúpido – por «não terem tempo» para fazer o que nós fazemos.
É certamente legítimo que o homem que redige relatórios, alinha números, responde a cartas de negócios, acompanha as cotações da Bolsa, experimente uma agradável sensação da sua superioridade quando nos diz em ar de troça: «Isso é bom para si que não tem nada que fazer.». Mas essa superioridade haveria de afirmar-se com o mesmo desdém, ou até maior (porque jantar fora é coisa que o homem ocupado também faz), se o nosso divertimento consistisse em escrever o Hamlet ou simplesmente em lê-lo. No que aos homens ocupados falta reflexão. Porque deviam pensar que a cultura desinteressada que lhes parece um cómico passatempo de ociosos quando a surpreendem no momento em que é praticada é a mesma que na sua própria profissão situa num nível fora de comum homens que talvez não sejam melhores magistrados ou administradores que eles, mas diante de cuja progressão rápida se inclinam dizendo: «Parece que é um grande letrado, um indivíduo imensamente distinto.» Mas, sobretudo o juiz presidente não tinha consciência de que o que me agradava naqueles jantares da Raspelière era que, como ele dizia com razão, embora por crítica, eles «representavam uma verdadeira viagem», uma viagem cujo encanto me parecia ainda mais vivo por não ser o objectivo dela e por nela não procurarmos qualquer prazer – já que este estava reservado para a reunião aonde nos dirigíamos e que não deixava de ser fortemente modificado por toda a atmosfera.”

Marcel Proust, Sodoma e Gomorra, págs. 438-439, trad. Pedro Tamen.

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