Dona Augusta, vizinha

[Se não acreditasse em clichés nunca os encontraria na rua, e eles nunca me concederiam o vislumbre da sua densidade humana. Um agradecimento, por isso, à Dona E., que uma vez me ensinou que uma casa se abençoa por, antes de entrarmos nela, despejarmos um balde de água salgada aos degraus da porta, marcando no chão o sinal da cruz.]

Dona Augusta (n. 1927) mora em Miragaia numa casa que herdou do marido quando ele a deixou viúva e mãe de um filho aos vinte e três anos. Desde então nunca mais casou, nunca mais teve tempo sequer para pensar nisso. Todos os dias carregava a farda e o avental pelos degraus das Virtudes acima até ao mercado do peixe na Cordoaria, onde desde manhãzinha trabalhava de mangas arregaçadas sobre as marmotas. À noite acolhia quem a procurava no resguardo de uma pensão na rua dos Caldeireiros. O trabalho na alcova fora-lhe sugerido por uma vizinha sua que, certa vez, ao vê-la pedir na rua pão para a boca do filho, se compadecera dela.
O mercado do peixe fechou poucos anos depois da chegada de Augusta, quando as pessoas começaram a fugir da desolação dos bairros velhos para mais higiénicas urbanizações nos subúrbios. Dedicou-se, então, com fúria, às noites da pensão e tanto sangrou que, quando o dono sentiu o peso da idade nos ombros, não hesitou em propor-lhe a gerência partilhada do negócio: o trabalho para ela, uma magna renda para ele. Augusta, que remédio, aceitou. Farejou os becos do Barredo onde os estivadores do vinho iam à caça das filhas bastardas dos bairros, escolheu as que lhe pareceram mais hábeis e sérias e puxou-as pelas Virtudes até à pensão dos Caldeireiros. Educou-as como suas filhas na moral que a vida lhe ensinara e iniciou-as na devoção à Senhora da Silva.
Da janela da pensão via a capelinha da santa que escolhera para sua protectora. Rezava a lenda (rezava ela também muitas vezes a muita gente) como num tempo antigo uma imagem da Virgem Mãe desaparecera certa noite do altar da Catedral para, na manhã seguinte, ser encontrada perdida num silvado que crescia junto à muralha. Assim foi acontecendo por muitas noites, até à madrugada em que veio um padre do Cabido pôr-se à espera no silvado. Acabou por descobrir, para sua surpresa, que o profanador da santa era na verdade um anjo cheio de luz, certamente enviado pelo Altíssimo. Fora Sua vontade fazer das silvas o altar da santa.
Augusta via a mão de Deus no passar dos dias: como fizera à santa, achou que também Ele enviava um anjo à noite para colhê-la do leito e pousá-la no silvado que era a sua vida. Com isto em mente adormecia sempre descansada. Mas eram anjos e criaturas de outras formaturas que a procuravam nos lençóis. Ela recebia-os com resignada benevolência, até à hora em que a luz rompia no céu da cidade.
Certo dia encontrara um dos seus visitantes nocturnos, distinto senhor doutor de leis e de vários saberes, à porta do antigo mercado. Discretamente viera propor a Augusta um negócio de contornos macabros que o próprio armara com mais três camaradas. Ela tremera com o que ouvira, com os pormenores retorcidos da perversão, na qual o respeitável cavalheiro a convidava a participar a troco de alguns contos de reis, suficientes para tentar a pobreza em que vivia. Apertou com força o crucifixo que lhe pendia do pescoço, pensou no filho, nas meninas da pensão e na Virgem da Silva, e, voltando a face de Cristo para o peito, cobrindo-o com a mão direita, firmou o pacto com os dedos incertos de medo. Sabia que nunca a santinha lhe perdoaria tal pecado, e por isso passou a carregar às costas o peso da condenação que desde então a velou.
Com os dinheiros do infame negócio comprou a pensão dos Caldeireiros ao velhote. Trabalhou dia e noite para a tornar apresentável e (rindo-se baixinho frequentemente pensava) mais respeitável. Cavalheiros de outra categoria começaram a frequentar a sua casa – e as suas meninas, que tanto os comoviam com a beata devoção a Nossa Senhora. Descarregavam nelas as paixões carnais da noite, mas no final, na volta para a cama conjugal, vinham plenos de uma estranha e terna bênção maternal.
A fama da Casa Augusta espalhou-se pela cidade, e os bons ventos do negócio permitiram-lhe ajudar as filhas na busca de novas vidas longe das alcovas da pensão. A algumas chegou mesmo a dar tecto, em prédios que certos confessores seus, mais necessitados dos serviços da Casa, lhe havia deixado como herança e agradecimento. Com o passar dos anos eram já dezenas as famílias a que dava guarida, da Ribeira ao Campo, da Batalha a Monchique. Tornou-se uma das mais respeitadas e ricas senhoras dos bairros velhos. Chamavam-lhe muitas vezes Mãe, benemérita das meninas da rua e de quem a procurava. Mas ela retorquía sempre que «mãe só a nossa ou a de Deus».
Com o tempo e a bengala passaram a chamar-lhe Dona Augusta; e assim também eu agora o faço. Sempre que a vejo vem com o cabelo muitíssimo bem armado, xaile preto sobre ombros e óculos escuros com dois brilhantes cravados em cada aresta. Conheci-a uma tarde quando descia as Virtudes na volta de mais um dia de trabalho ao balcão da pensão. Desabafou comigo: «filho, hoje o dia só me rendeu dois contos, e desses metade fui já deixar à santa. Ela não aprova, mas também lhe faz falta o dinheiro para as obras da capelinha. Rezo por mim e por ela todas as noites, haja alguém que nos ajude. Como aquilo está, qualquer dia ainda voltam a deixá-la perdida no silvado da Sé.»

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