Primavera – nota sobre o Cinema Progressista

1. Visto e revisto. Mais um Pialat ascende ao panteão cá de casa.

A Nos Amours5579140278_3007c814dftumblr_m5aafotsts1rw5j8to1_5002. O hipnótico lustre carmesim da Nina Hoss, e a placidez invejável quando ele cai.
Três tiros, três melros: Petzold.

review_yella

Christian-Petzold-YELLA-2007-590x317Yella3. Deus abençoe a Primavera.

Dolce Vita

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Nota sobre o Cinema Progressista

É o Amor de João Canijo e Rafa de João Salaviza são os filmes mais repugnantes que vi nos últimos anos. Está lá, para quem quiser ver, toda a falta de ética do cinema progressista.
Salaviza: os nossos heróis, tanto quanto conseguíamos alcançar, voavam luminosos a caminho do cemitério e, se fossem mesmo dos bons, do Inferno, e era por isso, e não apesar disso, que os amávamos.

accattoneHoje, de forma repugnante, querem-nos fazer crer que os nossos heróis necessitam de ser compreendidos e que devemos com insistência e se necessário à força desviá-los do cemitério e do Inferno e coloca-los numa fila da Segurança Social.
raging bull
Estes bons samaritanos ambicionam, com a dose certa de condescendência, sentimentalismo de terceira categoria, paternalismo serôdio, obtusa consciência social e uma cristalina e absoluta incompreensão do que é a arte, dar-nos a ver o contexto em que nasce a loucura e o crime e assim contribuir para que desculpemos os nossos heróis.
images (1)O Salaviza fede àqueles putos ricos que quando um gajo −o nosso herói – lhes põe a cana do nariz a produzir um fascinante jacto de sangue e lhes rouba a mota, começa logo à procura de alguma coisa para condenar e, como a consciência social não lhes permite condenar o herói, condena o sistema.
AccatoneNão percebe, por um lado, que chega a esta conclusão partindo do mesmo ponto de vista dos que sempre condenaram os nossos heróis: o condescendente sentimentalismo pequeno-burguês; e, por outro lado, que não há nada para condenar: é o mesmo instinto que o inclina a te partir a boca toda por mero capricho que o torna apto a ser contemplado, que o torna magnífico, espectacular, grandioso.

ragingbull

Usar a câmara para nos dar a contemplar a rara natureza primitiva destes notáveis exemplares da espécie, a indiscutível beleza e vitalidade esmagadora dos seus instintos, a malícia e joie de vivre provocadora que tanto neles admirámos? — Isso não! Vamos castrá-lo, domesticá-lo, pôr uma coleira (vejam a postura cobarde do Rafa) e denunciar a amargura da sua existência – isso é que é!
Accatone_1840900aMalogrado os ângulos elegantes, o enquadramento e ritmo perfeito e o suposto neo-neo-realismo (superficial) de Salaviza (em Canijo, nem isso), o que sobra, para lá do instinto é tão só o mau gosto e a banal vulgaridade do belo povo: eis o que Canijo cá veio filmar.

???????????Mas sobre o filme de Canijo (antes tivesse filmado o Fábio Coentrão a saltar para os No Name depois do golo contra o Marítimo: está lá tudo cabrão), a repugnância é tanta que o melhor é paralisar tudo o que tenho para vomitar.
Entretanto, pela 
boa consciência progressista, pode ser que lhes espetem com uma palma de ouro em cima. Pela minha parte, vou continuar a rezar para que alguma selvagem criatura cujo habitat seja um duro bairro social lhes desfaça a mandíbula à patada – para meu eterno regozijo. 

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5 respostas a Primavera – nota sobre o Cinema Progressista

  1. pedro a. leitão diz:

    «os nossos heróis, tanto quanto conseguíamos alcançar, voavam luminosos a caminho do cemitério e, se fossem mesmo dos bons, do Inferno, e era por isso, e não apesar disso, que os amávamos.» Não consegui deixar de pensar no Imperdoável do Eastwood depois de ler isto. Parece-me, até, que foi esse filme que sepultou de vez os heróis dos clássicos, que eram mais homens que heróis, e por isso propriamente heróis. Ramires, obrigado, tenho de ver esse Pasolini.

    Sobre o Canijo, estive a um passo de entrar no cinema para ver esse filme. Ainda bem que não o fiz, poupaste-me a uma grande desilusão. Gosto do Canijo por toda a crueza e brutalidade que, pelo que contas, falta neste filme. O Noite escura e o Sangue do meu sangue – os que vi dele – devem ser a antítese deste (estranhei logo pelo título): só há misantropia, destilada ao animalesco, sem artifícios éticos ou civilizacionais; há quanto muito um sentimentalismo volátil que tanto pode ser uma carícia de conforto a um desgraçado (por pena), como uma foda forçada que disfarça o carinho que se tem (por vergonha). É repugnante, mas no bom sentido, em que toda a fé na intrínseca bondade das pessoas é também repugnante.
    Até ao próximo filme, que alguém lhe esmurre a «boa consciência» dali pra fora, depressa.

  2. pmramires diz:

    É exactamente isso: o herói propriamente herói é humano, demasiado humano como diria Nietzsche, e é por ser demasiado humano que o amámos.
    A curta (‘Rafa’) do Salaviza, não é má – só que me repugna: os gunas dele parecem um joguete ao serviço de uma ideia: a igualdade social, a segurança social, o progresso, a igualdade, o bem-estar; ele pensa que se os gajos disserem palavrões, cuspirem para o chão, não cruzarem a rua na passadeira, andarem de mota sem capacete, baterem na irmã e desprezarem a mãe nós gostamos menos deles, quando é ao contrário, retira-lhes humanidade e transforma-os numa caricatura manhosa, acanhada, distorcida: quanto mais ‘contextualiza’ e ‘embeleza’ mais longe da verdade, isto é, mais falso. O Pasolini (um dos grandes italianos do século) filmou a gunada como ninguém. No ‘Mama Roma’ há ali uma cena em que ele trai o herói (o Jorge Silva Melo viu-o muito bem) para tornar o plano ‘bonito’ – mas de resto é irrepreensível.
    Quanto ao filme do Canijo, acho que vais detestar aquilo. Ele veio filmar aqui ao lado aquela pequena burguesia (“pescadores” relativamente endinheirados) que lê a revista Maria, vê a casa dos segredos (e adoraria participar) e chama “mor” e essas merdas ao namorado – o kitsch do kitsch. A banal vulgaridade de gente sem nada que a distinga, sem nada que mereça ser filmado. Só visto. É claro que os críticos vão adorar: acham que aquilo é o “povo”, acham que ainda há qualquer coisa de “genuíno” ali. É o “amor” do “mor”. São ainda mais parolos do que os filmados. Enfim.
    Abraço

  3. pmramires diz:

    Não vi o ‘Sangue do meu Sangue’. E este só vi por voyeurismo, para dizer a verdade.

  4. rui diz:

    Admiro profundamente a tua paciência para ires ver estes filmes do Canijo e do Salaviza. Eu nem que me pagassem.

  5. pmramires diz:

    Não devia apontar nada em minha defesa: afinal, vejo tudo o que passa no cineclube.
    Mas o do Canijo, como digo ali em cima, foi por voyeurismo: filma a comunidade aqui do lado. Conheço bem as Caxinas e queria ver o que ele lá viu.
    Quando ao Salaviza, já se adivinhava um pouco do ‘Rafa’ no ‘Arena’, mas decidi dar o benefício da dúvida. E vou continuar a dar: sempre cheio de benevolência, como se lê acima.

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