Eheheh

5600320229379Natal, prendinhas.

Terça-feira à noite, ‘I Hired a Contract Killer’. Parece o resultado de um trabalho de escola, um filme de quem se está a formar e ainda não tem uma estética, espécie de arranhões em Hitchcock+ policiais de Godard [a gun and a girl] + reminiscências de Trufffaut (a energia de Antoine Doinel) + Peeping Tom (a Londres de Powell, a quem é dedicado o filme), isto não quer dizer que não contenha alguns traços que definirão a estética Kaurismäki: flores; o tríptico gente solitária num sofá + mesa com um jarro de flores + parede colorida; o inevitável concerto, este com o Joe Strummer, não é um qualquer; flores; o actor principal (neste filme mais enérgico do que apático, Léaud) é um joguete do destino, isto é, das pessoas e circunstâncias que o rodeiam; os degraus do autocarro; flores; uma atmosfera enegrecida, paisagem (pessoas incluídas) velha, esquecida, enrugada, decrépita, o lado sujo mas habitado da cidade onde o seu olhar consegue sempre descobrir beleza, um gesto de ternura, de amizade, um afago uma carência de amor, e flores e vinho e whiskey; etc. Mas ainda se assemelha a uma coisa muito académica – a cena do comboio (o tic-tac do relógio, a mala, …) é quase uma paródia de Hitchcock. Sem dúvida que ele se divertiu, e a banda sonora é como de costume brilhante – entre melancólico blues e o eufórico rock –, mas é todo o filme uma obra de amador (de quem ainda não domina), no bom e no mau sentido.

—–
Hoje, a boémia. No ‘La Vie de Bohème’ temos um Groenendael (a paixão estival de 2012 aqui do escriva – o finlandês nasceu para me fazer feliz) chamado Baudelaire, o Samuel Fuller a financiar uma revista literária (a forma artística de fazer uma doação), o Louis Malle a pagar um jantar de 400 e tal francos a um desconhecido, e de novo o Léaud, agora a interpretar um patético burguês, ávido e iludido por aquilo que acredita ser Arte. A estética tem muito pouco de Kaurismäki – e sempre que este lá tenta pôr uma pincelada sai borratado, como o concerto, uma coisa sem pés nem cabeça, que nasce e morre como um intruso – parece antes o resultado de quem viu e amou o L’Atalante pelo menos cem vezes, como eu o amei há uns anos no Campo Alegre, infelizmente uma só vez.
sf—-
Agora, um copito antes de dormir, se me fizerem o favor.

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2 respostas a Eheheh

  1. rui diz:

    pm, agora fui eu que vim cá à procura disto. Ao contrário de ti (acho), gostei muitíssimo do ‘Boémia’, é daqueles filmes que me reconciliam com o cinema (e fazem uma série de chavões terem sentido, como ‘humanismo’, etc., etc.)

    • pmramires diz:

      Eu também gostei muito pa! Porra, não há nenhum filme do Kaurismaki que eu não tenho gostado muito. A única coisa que disse foi que é diferente dos restantes… pareceu-me… mas é um grande filme!
      Abraço

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