2012 – um livro

Uma voz altiva mas nunca petulante, forte mas nunca grosseira, erudita e graciosa como na língua portuguesa não me lembro de encontrar, voz de menino, até ao fim voz de menino, mas firme, que teimou em cantar o fim do Império Português quando outros dele vergonha tinham. António Manuel Couto Viana, arrisco afirmar que será o poeta português do século XX que melhor resistirá ao tempo. Ostracizado, violentamente rejeitado pela intelligentsia (e há maior virtude?) portuguesa que nunca deixou de incluir Pound entre os grandes. Li de uma assentada, com incomensurável prazer, os dois volumes 60 anos de poesia da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Como se costuma dizer, seria insolente da minha parte apontar este ou aquele livro, até porque se tende a cair no erro de ser representativo, quando a única atitude que interessa perante a arte é ser apaixonado; mas quem ainda não leu, por exemplo, Avestruz LíricoNado Nada e Café de Subúrbio observa a poesia portuguesa na posição da raposa, que sabe muitas coisas mas não sabe uma coisa muito importante. Não resisto, ainda assim, a deixar aqui um poema, que muito apropriadamente se intitula Para Hoje.

É preciso ficar aqui, entre os destroços,
E cinzelar a pedra e recompor a flor.
É preciso lançar no vazio dos ossos
A semente do amor.

É preciso ficar aqui, entre os caídos,
E desmontar o medo e construir o pão.
É preciso expulsar dos cegos dias idos
A insónia da prisão.

É preciso ficar aqui, entre os escombros,
E libertar a pomba e partilhar a luz.
É preciso arrastar, pausa a pausa, nos ombros,
A ascensão de uma cruz.

É preciso ficar aqui, entre as ruínas,
E aferir a balança e tecer linho e lã.
É preciso o jardim a envolver oficinas:
É preciso amanhã.

António Manuel Couto Viana
in “Nado Nada”, 1977

—-

Quanto aos outros livros, e ficando apenas pela poesia, foi o ano em que li Eliot (é difícil designar tudo o resto de poesia depois de ler os Quartets; devia haver outra palavra), Leopardi (recomendação, esta, de uma sensual erasmus italiana), Tranströmer (escrevi uma crítica), Akhmátova (já a tinha lido, mas não seriamente, nem extensamente, como agora fiz) e Fiama e Rui Knopfli, por exemplo.

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2 respostas a 2012 – um livro

  1. rui diz:

    Já eu, que estou sempre atento à actualidade, tive como livro do ano o Money, esse mesmo, do Amis, que nunca tinha lido apesar de repousar numa prateleira lá de casa há anos. É brutal, claro. Já em termos de poesia sou analfabeto, mas uma vez ‘fiz o som’ (ligar e deligar um leitor de cds) de um recital do Waste Land, o que implicou assistir a quase todos os ensaios e ficar a saber até hoje uma boa parte do livrinho de cor. Aí percebi a importância de ler poesia em voz alta.

  2. pmramires diz:

    Por acaso o Waste Land talvez seja o que menos gostei no Eliot, mas enfim, eu não devia ter acrescentado nada mais ao Couto Viana, li com maior prazer o Ruy Cinatti ou o Mário Sá-Carneiro do que o Knopfli, mas foi este nome que me saiu. Eu detesto cordialmente aquilo que se chama a nova vaga da poesia portuguesa de intervenção e do gin-tónico (Golgona e essas merdas), que querem fazer passar por “festa da linguagem” um maneirismo foleiro e superficial, mas gosto bastante e leio cada vez mais regularmente poesia portuguesa. Como acho que sabes, também gostei do Money quando o li.

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