2012 – um filme

Se pensarmos que um artista se desenvolve até alcançar a total harmonia entre a forma como representa e o que é representado, em 2012 assistimos à consumação da estética de um génio: Le Havre. Vi-o no Campo Alegre, e reviu-o no cineclube da Póvoa e da Vila, e só não o revi mais vezes por mais oportunidades não me terem sido dadas.
Vê-se e revê-se Le Havre com o estado de espírito de um profano perante um milagre: primeiro, o espanto; depois, a alegria e embriaguez do encanto (revi o filme sempre com um sorriso); depois, as lágrimas; depois, o sonho; e depois saímos da sala com a sensação de uma personagem expulsa de um conto de fadas cujo único objectivo de vida passa a ser lá voltar.
Perante a gaguez de um e de outro sempre que uma palavra afirmativa buscámos sobre o filme, chegámos rápida e serenamente à conclusão que só nos restam as perguntas: como é que se chega a tamanha singeleza, àquele equilíbrio, àquela pintura, domínio e sabedoria? E balbuciamos: perseverança, fé, talento, coragem, afastamento, génio, independência – como se quiséssemos adivinhar a fórmula.
Um filme para o povo (tentei levar os meus pais), que o povo olimpicamente ignorou.
Enfim, com Kaurismäki as estrelas continuarão lá no alto a brilhar e nós a desejar algo que nunca se cumprirá.
le-havre

—-
Não fui muitas vezes ao cinema, mas os outros filmes que retenho vivos na memória são o Era uma vez Anatólia (que vi duas vezes e já dele aqui falei) e o Oslo, 31 de Agosto (que vi uma vez mas irei rever, quando chegar à província, e dele aqui darei conta). O que menos gostei de ver este ano (coisas que procuram ser cinema, e nestas não fazem parte merdas como Roma não sei o quê do Woody Allen), e pelas mesmas razões, foi o Obrigação do João Canijo e o Rafa do João Salaviza, e espero não me esquecer de vir cá pontapeá-los, como bem merecem.

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3 respostas a 2012 – um filme

  1. rui diz:

    Kaurismaki e 31 de Agosto, sim senhor. O do Allen está longe de ser assim mau: faz lembrar aqueles antigos filmes italianos em sketches. Mas se calhar sou eu que estou a ficar velho: hoje em dia se um filme me divertir já o acho bom; em contrapartida não perdoo a um filme que me aborreça.

  2. pmramires diz:

    ver comentário dos livros: não devia ter acrescentado nada mais ao Le Havre, também porque agora me apetece acrescentar o Shame ou o Tabu (apesar de todas as justas críticas que lhe fizeram, e malgrado a indisfarçável e irritante vaidade do Miguel Gomes, um grande filme). quanto ao Woody Allen, lembro-me vagamente de quando vi o teu post no Duelo ter tentado comentar “Nãaaaaaaaaaaaooooooooooooo”, mas aquilo não deu, não atinei com as letras ou lá o que aquilo pede, e ainda tentei umas três vezes. acho que estás a ficar velho, digo-o com a bonomia e consciência de quem para lá caminha.

  3. rui diz:

    Vi tão poucos filmes que ainda enfio o Roma no meu top 10, vamos ver se consigo fazer um. Mas enfim, eu não gostei nada do Meia noite em Paris, imagino que aches que este é do mesmo quilate.
    O Tabu não vi, embirro com o Miguel Gomes. Não gostei nada de 1 ou 2 curtas que vi dele, e apreciei moderadamente o querido mês de Agosto.

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